Novas experiências…                                                       
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Fiz uma turnê maravilhosa com um grupo de mulheres percussionistas da Dinamarca. O grupo se chama MARYLIN MANZUR AND PERCUSSSION PARADISE. Fez minha cabeça, meu corpo e ainda lavou a minha alma que andava em falta de fazer música criativa que me compele a dar tudo de mim. Elas são excelentes.

O começo…

Sobre minha participação naqueles discos antológicos dos anos 70, foi uma dádiva de Deus. Eu estava no lugar certo e na hora certa. Começou com a minha participação nos primeiros discos fusion do CHICK COREA and THE ORIGINAL RETURN TO FOREVER. Em seguida comecei a gravar meus próprios discos solo para Milestone. Foram 6 discos: BUTTERFLY DREAMS, STORIES TO TELL, 500 MILES AT THE MONTREAUX JAZZ FESTIVAL, com a participação de MILTON NASCIMENTO, ROBERTINHO SILVA e WAGNER TISO, OPEN YOUR EYES YOU CAN FLY, THAT’S WHAT SHE SAID e ENCOUNTERS.

Naquela época a música florescia de todos os pontos do universo e era quase impossível, não gravar constantemente ou participar da gravação de outros companheiros, tais como GEORGE DUKE, DUKE PEARSON, JOE SAMPLE,GIL EVANS meu mentor e ídolo, CANNONBALL ADDERLEY e mais tarde DIZZY GILLESPIE AND THE UNITED NATIONS ORQUESTRA. Sem incluir discos do AIRTO como FINGERS, IDENTITY, I‘M FINE HOW ARE YOU, PROMISES OF THE SUN e VIRGIN LAND. Também produzi os dois primeiros discos do HERMETO PASCOAL: HERMETO e MISSA DOS ESCRAVOS.

Meu mais recente CD: músicas e parcerias…

Falando um pouco do meu CD novo, FLORA’S SONG, é um disco difícil de categorizar, porque tem um pouco de tudo. Por exemplo LAS OLAS, é uma composição de JACO PASTORIUS e para mim se pode chamar de fusão, jazz brasileiro.

A composição LESS THAN LOVERS foi inspirada numa conversa que tive com o CHICK COREA, sobre a definição da palavra “forever”. Definitivamente um blues, com ajuda de dois vocalistas e do engenheiro do grupo TAKE 6. Composição de DIANA BOOKER, que também faz parte dos vocais de background.

THIS IS ME, é uma composição nova que se encaixa perfeitamente em World Music, por causa dos solos de percussão, tão característicos do estilo. Também composição de DIANA BOOKER e LYNNE EARLS.

FLORA’S SONG, é um perfeito exemplo de free jazz. Dei ênfase ao instrumental, principalmente aos solos de contrabaixo de MARK EGAN e do pianista CHRISTIAN JACOB, sem contar com a magnífica bateria de AIRTO MOREIRA e as intervenções do flautista GARY MEEK.

FORBIDDEN LOVE, foi a primeira música que eu escolhi como parte desse trabalho. Usei o apoio de ANDY NARRELL, tocando still pans, para mudar a textura do som.

SILVIA e LUA FLORA, foram inspiradas em pessoas que não se encontram mais entre nós. Partiram muito cedo, deixando lembranças de momentos maravilhosos de muito amor e criatividade.

Quando eu escrevi a letra da música ANJO DO AMOR, do Toninho Horta, eu estava no estúdio gravando um disco com um “ALL STAR BAND" para a gravadora CTI. O disco se chamou mais tarde "RHYTHM STICK" e apresentava como estrela principal o DIZZY GILLESPIE, que estava sempre com um instrumentinho na mão semelhante a um galho de árvore. Era no estilo de uma bengala carregada de tampinhas de refrigerantes um pouquinho soltas e que faziam um som diferente, daí o nome “rhythm stick”. Na época a música ANJO DO AMOR não tinha letra e se chamava ESPERANDO POR ANGELA. O produtor, Creed Taylor me pediu que fizesse uma letra em português ali na hora e saiu assim. Acabou se chamando ANJO DO AMOR.

Naquela época eu ainda não conhecia ANJO DE MIM, cantada pelo Ivan, mais ouvi a gravação da Simone e me apaixonei. Aliás eu sempre adorei ANJO DE MIM. Considerei gravar esse tema pelo menos em dois CDs anteriores, finalmente consegui o time certo para esse CD então gravei e adorei.

Conheci o ALCYVANDO LUZ através de LUIS CARLOS COQUEIJO ao mesmo em que conheci BETHANIA, GAL, GIL e CAETANO. ALCYVANDO tinha dezenas de composições maravilhosas. Escolhi É PRECISO PERDOAR porque me liguei na letra, que tem uma mensagem linda.

GEORGE DUKE já é parte da família. Nossos filhos tem um grupo juntos chamado EYEDENTITY, eles tocam hip hop, rap, trip hop, soul, blues e R&B. GEORGE DUKE, participou de quase todos os meus LPs e CDs desde 1968 e eu dos dele. Ele é um músico super competente, grande pianista e tecladista, assim como um grande arranjador e cantor. É um dos meus favoritos para sempre.

Os músicos foram escolhidos cuidadosamente de acordo com as suas tendências musicais. Assim como se escolheriam os arquitetos e engenheiros que vão construir os equipamentos de segurança de uma nave espacial em viajem de pesquisa, nesse caso pesquisa de um universo vasto que é a minha mente, quando me sinto forte livre e segura de mim mesma, para uma grande viajem sem volta, com a certeza de que estes foram os melhores navegadores e que essa nave vai me levar para o perigoso espaço da minha mente livre.

Evolução natural...

A cena musical mundial, está passando por um momento de evolução natural, por enquanto sem definição ou grandes novidades. Um pouco confusa. Tanto a MPB como o Jazz contribuíram em ocasiões diferentes para que eu pudesse me expressar musicalmente de acordo com o momento. O disco OPEN YOUR EYES, YOU CAN FLY é um bom exemplo do uso das duas influências.

Em busca de um novo mundo...

Sobre as razões dos outros músicos brasileiros irem para os Estados Unidos, eu não posso responder. Mas as minhas foram causadas pela ditadura militar que estava no auge em 1967, censurando letras e músicas da MPB.

Quando vi grandes compositores como GERALDO VANDRÉ, CHICO BUARQUE DE HOLLANDA, GILBERTO GIL, CAETANO VELOSO, SÉRGIO RICARDO e outros, impedidos de se expressarem e ainda serem ameaçados pela censura inculta dos censores daquela época, eu que estava no inicio da minha carreira profissional aos 22 anos, quis sair para um lugar que me desse o espaço e a oportunidade, da liberdade de expressão tão almejada por artistas livres e audaciosos, ainda que engatinhado para aprender a ter a habilidade de superar minhas próprias limitações, e delas fazer um trampolim para criar meu próprio estilo.

Escolhi os Estados Unidos na época por causa da grande afinidade que eu sentia pelo Jazz, pelo blues e pela música de improvisação em geral. Minha grande oportunidade surgiu em 1970, quando fui convidada pelo CHICK COREA, para fundar o grupo THE ORIGINAL RETURN TO FOREVER, juntamente com STANLEY CLARK, no contrabaixo acústico, JOE FARRELL (grande músico) nos saxofones e flautas e AIRTO MOREIRA. Esse grupo, o grupo do MILES DAVIS, o grupo WEATHER REPORT, os grupos MAHAVISHNU ORCHESTRA e TONY WILLIAMS, TEN YEARS AFTER, foram os precursores da música de fusão nos anos 70.

Como parte do “THE ORIGINAL RETURN TO FOREVER”, ajudamos na criação de grandes clássicos do jazz-fusion, tais como 500 MILES HIGH, CAPTAIN MARVEL, SPAIN, CRYSTAL SILENCE, LA FIESTA, LIGHT AS A FEATHER e por aí vão pelo menos mais 10 grandes composições.

Editado por Tatiana Reyes.

Baseado na entrevista feita por Luciano Aguiar, do Jornal A Tarde ( Salvador, Bahia, Brasil) publicada no 30 de novembro de 2005.

Curriculum Vitae...

- Estudei piano (musica clássica) dos quatro aos 12 anos de idade.
- Estudei violão acústico com Manoel da Conceição, mais conhecido como Mão de Vaca (pelo tamanho gigantesco de suas mãos).
- Continuei meus estudos de violão acústico na academia de Carlinhos Lyra, com Oscar Castro Neves.
- Estudei posteriormente já em Los Angeles arte dramática (método Stanislavsky)
- Recomecei a estudar música poliritmica com o Maestro Moacyr Santos que juntamente com a sua esposa Cleonice (Cleozinha) foi padrinho do meu casamento com o Airto.
- Estudei música aleatória, composição e arranjo na Universidade de Long Beach.
- Estudei música eletrônica também na Universidade de Long Beach (1974 a 1978).
- Música contemporânea e eletrônica (bolsa de estudos dos computadores alemães Bukcla)
- E aprendi a música que faço hoje com Airto Moreira e Hermeto Pascoal. Método Liberdade ou Morte!

Flora Purim

 

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